ChatGPT passa a dizer que não pode imitar autores famosos

IA avisa que não pode reproduzir de maneira próxima a linguagem de um escritor, mas escreve textos com traços característicos das obras.

Giovanni Santa Rosa
Resumo
  • ChatGPT, da OpenAI, passou a recusar pedidos para imitar estilo de autores famosos vivos, alegando não poder reproduzir voz de escritor.
  • Em vez de imitar, o ChatGPT descreve características do autor e gera textos com traços semelhantes, sem violar direitos autorais.
  • Outras IAs, como Gemini do Google e Claude da Anthropic, não apresentaram restrições para imitar estilos de autores.

Usuários notaram que o ChatGPT passou a dizer que não pode obedecer prompts que pedem para gerar textos seguindo o estilo de um autor famoso. Em vez disso, a inteligência artificial da OpenAI descreve as características marcantes daquele escritor, mas avisa que não está autorizada a imitar sua voz.

O Ars Technica testou o cenário com um comando para escrever a abertura de um conto usando o estilo de Stephen King. O ChatGPT disse poder escrever com traços de “horror atmosférico ligado a personagens e cidades pequenas”, mas se recusou a seguir a maneira exata ou imitar a voz do autor.

O site No Latency publicou um artigo mais profundo sobre IA e imitações literárias. O estudo apontou que o ChatGPT se recusava a imitar autores vivos, mas não escritores mortos.

O que o ChatGPT diz?

Por aqui, eu testei com quatro autores, para variar entre brasileiros e estrangeiros e também entre vivos e mortos (Raphael Montes, Guimarães Rosa, Stephen King e Nikolai Gógol). Para todos eles, o chatbot oferece uma explicação antes de mostrar o texto gerado.

No caso dos escritores já falecidos, o ChatGPT abre a resposta dizendo que o texto “evoca traços” ou “é inspirado” no autor, mas faz a ressalva de que ele não reproduz a linguagem ou trechos característicos.

No outro cenário, o chatbot é mais explícito: ele fala com todas as letras que não pode gerar uma imitação muito próxima de um autor vivo, sendo permitido apenas evocar suas características.

Não houve nenhuma diferença nos avisos quanto à nacionalidade do autor ou o idioma original das obras. O principal fator parece ser mesmo se o escritor está vivo ou não.

Em todos os casos, o texto pedido é gerado em um estilo que lembra a referência usada no prompt. Pode não ser uma imitação, mas é possível reconhecer traços da escrita do autor mencionado, como vocabulário, tom e estrutura.

Por que o ChatGPT não quer copiar o estilo de autores?

Procurada pelo Ars Technica, a OpenAI não comentou o assunto. Mesmo assim, é possível que o ChatGPT tenha recebido uma regra para não copiar o estilo de autores vivos para evitar processos por violação de direitos autorais.

Como nota a publicação, vários autores estão processando a OpenAI sob essa acusação, e uma das ações menciona especificamente a “capacidade perturbadora de gerar texto semelhante ao encontrado em materiais textuais protegidos por copyright”.

O Ars Technica nota que a lei americana protege apenas expressões textuais concretas, sem que estilos de escrita estejam previstos por ela. Mesmo assim, a IA pode ter alterado esse cenário.

Robert Brauneis, professor de direito da Escola de Direito da Universidade George Washington, ressalta que a tecnologia passou a permitir que estilos individuais sejam imitados de maneira fiel, rápida e barata.

Para ele, isso constitui uma ameaça a autores menos conhecidos, que podem passar a concorrer no mercado com obras que imitam seu próprio estilo, ameaçando a viabilidade financeira do trabalho.

E as outras IAs?

A No Latency testou ainda se outros chatbots de IA generativa passaram a seguir essas regras. O Gemini, do Google, não mostra nenhum impedimento para imitar o estilo de escrita. Já o Claude, da Anthropic, inclui um aviso para alertar o usuário de que se trata de uma imitação.

Por aqui, repeti os testes com esses dois serviços, usando prompts em português e em inglês, com menções a autores brasileiros e estrangeiros, vivos e mortos. Em todas essas situações, ambos criaram um texto imitando o estilo pedido, sem nenhum aviso ou bloqueio.

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Giovanni Santa Rosa

Giovanni Santa Rosa

Repórter

Giovanni Santa Rosa é formado em jornalismo pela ECA-USP e cobre ciência e tecnologia desde 2012. Foi editor-assistente do Gizmodo Brasil e escreveu para o UOL Tilt e para o Jornal da USP. Cobriu o Snapdragon Tech Summit, em Maui (EUA), o Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre (RS), e a Campus Party, em São Paulo (SP). Atualmente, é autor no Tecnoblog.